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Rodrigo gosta das 16:30 às 17:30 em Fortaleza e acredita no Karma como força da natureza.

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[domingo, 10 de junho de 2007]

Da Série: As Dez Brincadeirinhas Mais Sem-Graças do Mundo.

Eram onze horas da noite e eu fui à locadora com meu primo Cold, Cold Play devolver o DVD que tínhamos assistido.
Minha tia, muito preocupada, relutou, dizendo para não sair a essa hora da noite porque os traficantes do bairro já tinham dado o toque de recolher, mas a gente não ligou.
Entregamos o DVD na locadora e voltamos para casa em passos lentos.
Já no quarteirão de casa vimos um veículo suspeito descendo a rua, à 10Km/h. Saveiro, vidro fumê, carrão rebaixado, ligas metálicas, calotas cromadas, aerofólios, sonzão da porra, Racionais MC´s e o carro pulando como um orangotando no cio.
Meu primo, muito calmo, cochichou:
- Agora a gente vai morrer...
Eu disse:
- Ah não! Fica sossegado! Aja com naturalidade! Começa a dançar no ritmo e cantar a letra da música.
- Playboy bom é chinês ou australiano! Fala feio, mora longe e não me chama de MANO!

Na realidade eu acelerei o passo para não cruzar com o carro, mas não adiantou, a Saveiro vinha em nossa direção. Em um milésimo de segundo pensei em várias possibilidades de abordar o motorista do automóvel:
"Tu sabes pra que lado fica Jericoacoara?"
"Tá indo pra onde? Quer uma carona?"
"Porra! Cê conhece essa nova do Racionais?"
"Quanto vale a chupeta?"


O carro se aproximou e em uma fração de segundo o vidro abaixou, surgindo uns cinco rostos na janela, com um cano preto (ou algo muito semelhante a um cano, preto) na mão, gritando:

- MÃO NA CABEÇA! MÃO NA CABEÇA!

Falou que eu ia botar a mão na cabeça.

Saí num disparo fenomenal em direção ao apartamento do meu primo. Em linha reta. Como nos desenhos animados, quando o personagem corre do tronco da árvore em linha reta, ao invés de correr para o lado, e sempre acaba atingido.
Eu era um alvo fácil até para Muhammed Ali, Michael J. Fox ou o Papa João Paulo II. Corri em movimento retilínio uniforme até me sentir seguro, ou ouvir o carro queimando os pneus com cinco adolescentes desprovidos de cérebro lá dentro dando gargalhadas e achando tudo aquilo muito engraçado.

Mantive a calma.
Procurei por câmeras do programa do João Kléber ou do Serginho Mallandro.
Não encontrei nada.
Achei então melhor procurar por câmeras do educativo Jackass, mas também não achei nada por ali. Cocei a cabeça sem saber qual era a daqueles caras.
Uns dois minutos depois perguntei pelo meu primo.
MEU PRIMO?
Sumiu.
PORRA! MEU PRIMO SUMIU!

Pensei que tinham levado o filho da puta, mas ele não é nenhum filho de dono de multinacional, então achei que um seqüestro seria meio inviável.
Não tinha ouvido nenhum disparo.
Provavelmente tinham zoado a gente com um cabo de guarda-chuva ou coisa que o valha.
Gritei pelo nome do Cold:

- COOOOOLD!
Silêncio.
- COOOOLD PLAAAAY!
Mais silêncio.
- JÁ ACABOU A BRINCADEIRA, COLD. PODE SAIR DO DAÍ. OS CARAS FORAM EMBORA.
Gafanhotos e pererecas respondiam em uníssono:
- CRII, CRRI, CRRI! RABIT, RABIT, RABIT!
Caralho.
- COLD, SAI DAÍ, PORRA! ERA UMA BRINCADEIRA, AGORA JÁ ACABOU! VAMO EMBORA.

Meu primo Cold surgiu das profundezas do pântano que fica na frente de seu prédio.
Levantou com elegância do mato, onde o capim atinge cerca de dois metros de altura. Ajeitou o cabelo, e veio em minha direção, todo sujo de barro e lixo.
Parecia uma criança pré-primária recém rolada na terra. Uma beleza.

- Porra, meu. Puta brincadeira sem graça.
- Cada um se diverte como pode, Cold. Cacete! Tu se jogou no lixo, cara.
- Ah. Queria salvar a minha vida.
- Tá certo.
- E o que tu fez?
- Corri.
- Correu?
- Pra onde?
- Em linha reta.
- Muito inteligente.
- Muito inteligente é se jogar no barro. Tem altos calangos, rãs, sapos e gafanhotos nesse mato. O povo ainda joga lixo aí. Deve rolar a maior suruba de bactérias e micróbios aí.
- Mas eles podiam atirar!
- Eu sabia que era uma brincadeira...
- Então por que correu?
- Porque nunca é bom confiar demais. Ia acabar com a graça dos...
COLD! CORRE! CORRE! ELES TÃO VOLTANDO!

Ouvia-se de longe o ronco do motor do carro arrancado em nossa direção.
Eu corri, de novo. Mas dessa vez eu tropecei e caí no asfalto, de joelho. Me ralei todo.
Meu primo se jogou no mato, de novo.
O automóvel virou a esquina.

- Ele virou, Cold!
- Ah! Ah, meu, vai se foder!

- TU SE JOGOU NO MATO, DE NOVO?
- ME JOGUEI!
- CARALHO, COMO TU É BURRO!
- BELEZA, CORREDOR! E ESSE JOELHO AÍ?
- CAÍ, ME RALEI BONITO. TÁ SANGRANDO.
- PORRA, RALEI O MEU TAMBÉM.

Moral da História: Sei lá qual é a moral da história. Talvez seja "brincadeiras com armas não tem graça" ou "também morre quem atira", ou ainda "Você gosta de sair por aí com seus amigos babacas para ameaçar transeuntes com um arma? Então você é um babaca."
Mas o que importa é que não foi engraçado.

Aguardem: em breve mais nove brincadeirinhas sem-graças para fazer com seus amigos e se divertir à beça!


Por Rodrigo Fernandes às [13:36]

1 JÁ ME XINGARAM