


[Sobre Mim]
Rodrigo gosta das 16:30 às 17:30 em Fortaleza e
acredita no Karma como força da natureza.
--Arquivos--
Links
--Créditos--
Layout configurado por Bruno Pinheiro
[segunda-feira, 13 de agosto de 2007]

Realmente não sei se o indivíduo se encaminha a essa área por vontade própria ou por ironia de deus, mas esta pode ser com certeza a imagem idealizada do futuro (sem futuro) frustrado de uma tentativa-de-músico no Brasil.
Hoje eu fui numa dessas escolas. A mais famosa de Fortaleza por acaso. E fiquei a observar a dura realidade daquelas pobres criaturas.
Uma escola de música deve ser a coisa mais lucrativa do mundo, se levarmos em conta a teoria da mais valia de Karl Marx.
A escola de música consiste basicamente numa seleção de indivíduos virtuosos em seus instrumentos e nos pobres alunos fadados a assistirem a shows de solos virtuosos dos seus professores.
Vamos citar por exemplo o método de ensino de violão para leigos utilizado por cem por cento das escolas de músicas do país. Vocês podem fazer esse teste em qualquer escola de música do Brasil. Na primeira aula o cara vai perguntar se você conhece alguma coisa de música. Vai te questionar sobre os teus gostos musicais, mesmo estando nem aí se você gosta de Britney Spears ou Nirvana, e então te introduzirá à música Flores dos Titãs, constituída basicamente de dois acordes simples e fáceis de serem tocados. O cara leva cerca de uma semana para tocar toscamente "Flores" do Titãs, se for um aluno aplicado.
Fiz um mês de aula, e vi que o negócio não ia andar pra frente. Eu curtia NIRVANA e queria mais que Flores dos Titãs fosse pro inferno. Se o professor se desse ao trabalho de pesquisar alguma coisa, veria que tocar "About a Girl" é tão mais fácil que Flores.
No caso meu professor passava a lição do dia em 10 minutos. Como sabia que eu não seria capaz de pegar a parada em meia hora, ele saia fora logo após me passar o papel e só voltava no fim da aula ou ficava conversando comigo sobre as minas que ele tinha comido no show da semana passada.
Desisti do violão e aprendi sozinho, pelas revistinhas de banca.
Notei só cinco anos depois que minha evolução não tinha sido lá essas coisas, mas já que tinha algum conhecimento, pensei que poderia finalmente me tornar o desejado guitarrista virtuoso, e voltei à escola de música.
Meu professor de guitarra até era gente boa, mas as aulas eram realmente uma bosta.
Ele até me ensinou coisas importantes de teoria. Mandava eu improvisar umas bases com a escala harmônica sem ter aprendido direito na prática escala ou improvisação. Mas eu queria mesmo era SOLAR. Queria tocar igual o ANGUS YOUNG! Mas isso não foi possível me ensinar.
Tive mais paciência na aula de guitarra. Fiz alguns meses.
A aula era semanal. Chegava quinze minutos atrasados que nunca eram descontados. Fazia mais quinze minutos de escalas maiores de dó, para aquecer. Nos outros quinze minutos eram a teoria, demonstrações do que eu deveria fazer e demonstrações do seu virtuosismo, os quais eu era obrigado a ouvir.
Nas raras vezes em que não ficava se exibindo, ele mandava eu tocar alguma coisa. É um negócio muito constrangedor, eu não toco nem pra minha mãe direito. Eu tocava canções dificílimas, Steve Ray Voughan, Steve Vai, Eric Johnson. Ficava sempre uma bosta. Ele achava que eu não tinha captado a essência da música, e tinha a solução na hora.
Ouvir a música enquanto ele me mostrava a incorporação do sentimento.
Sim! Ouvir ele tocar mais um pouco! É um negócio que ajuda pra caramba você incorporar o sentimento, isso de ver outra pessoa tocar.
Ele tocava mais quinze minutos junto à música original, e a aula acabava.
E assim foi basicamente durante todos os meses.
Um aluno de guitarra ou de qualquer outra coisa que está a mais de dois anos em uma escola não tem como evoluir. Não que não dê para evoluir, o problema é que os professores não querem que ele evolua, senão eles perdem mais uma mensalidade.
Um dia uma garota que tinha um namorado que dava aulas em uma dessas escolas me contou quais eram as instruções passadas a ele.
Ele deveria enrolar o máximo possível na sala com o aluno, isso inclui coisas como solos improvisados de sete minutos, mostrando o quanto ele é bom para o aluno, e o quanto ele depende dele pra fazer aquelas porras bregas. A outra instrução fundamental era não deixar o moleque se tornar o novo Jimi Hendrix, o que era realmente muito fácil.
São sofríveis as apresentações dos alunos dessas escolas de música. Os repertórios são sempre singulares, e é um negócio pra pai ver.
Hoje, olhando pela janela da porta, fiquei a observar um professor careca de guitarra que dava aula para um moleque cabeludo, de 14 anos, com camisa do Iron Maiden.
O filho da puta solou durante uns dez minutos ininterruptos, passando algumas instruções ordinárias durante as notas:
- Você deve mexer os dedos rapidamente...
E o moleque olhava fascinado, e ao mesmo tempo entediado com aquela coisa toda.
Achei que o carinha devia estar num estágio avançado da guitarra, mas ele mal sabia tocar "Flores" do Titãs.
Fiquei com vontade de mandar aquele careca se foder. Mas achei que seria muito mais atitude da parte de um cara com uma camiseta do Iron Maiden fazer aquilo, e deixei o moleque com as notas na cabeça refletindo sobre onde aquela porra toda iria chegar.
Se você quer tocar alguma coisa, seja ela qual for, tente aprender sozinho que isso só te trará vantagens:
- Você não terá nenhuma influência direta, nem técnicas quadradas de ensino, como se aquele acorde só pudesse ser feito com aquele número x de dedos, naquela posição y. Inverta tudo. Faça do jeito que for mais confortável pra você.
- Você cria sua própria batida. Não existe coisa mais energúmena do que ensinar batida de violão para o cara. Como três pra cima e uma pra baixo. Isso não existe. A batida já nasce junto quando você ouve a música.
- Demorar muito mais pra aprender a improvisar solos pode ser bem mais legal do que levar uma lição de casa de improvisação na escala sexagésima do caralho-a-quatro.
- Não ficar usando termos nerd-musicais com seus amiguinhos. Como chegar pro cara e falar:
- Noooossa! Esse foi o slide mais lindo que eu já ouvi na minha vida! ou
- Vixiiii! Que captador bass-fucking-fucking animal, é bem melhor do que um captador bidimensional!
ou
- Os amplificadores valvulados são muito melhores do que os amplificadores elétricos.
- Toque um Si Bemol a Sétima Elevado a Quinta seguido de um Dó a Sétima Latejante. Ou leia a partitura.
Foda-se a técnica toda. Se refira aos acordes como "F", "Am", "Bm" que é muito mais rock & roll.
Um dia você acaba caminhando com as suas próprias pernas. Se interessando por música, querendo saber o nome do "F", do "Am", e do "G", mas isso flui dentro de você, com o tempo. Como a música deve ser.
Por Rodrigo Fernandes às [14:24]
4 JÁ ME XINGARAM