[Sobre Mim]

Rodrigo gosta das 16:30 às 17:30 em Fortaleza e acredita no Karma como força da natureza.

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[quarta-feira, 24 de outubro de 2007]

O Inferno do Azul

Gosto de avisos, de placas, alarmes ambulantes, perambulando pelas calçadas do centro da cidade, poluição visual, contaminada, perpétua.
Gosto de pessoas encoleiradas, com as mãos atadas por avisos que indicam o seu estado de espírito, "mau humor, cuidado!", "elétrico", "cego e amando", "acordei com o pé esquerdo", "TPM, TPM, TPM", "meu chefe fodeu com o meu dia" e variantes.
Mas eu, eu sou um placar eletrônico num jogo de basquete. Mudo a todo momento, não importa onde, como e principalmente porquê para o placar virar.
Sou um neon com mau contato, zumbindo do maltrato.
Sou ligado à tomada na voltagem errada.

Gosto de previdências, umbandas e búzios. Estar à frente do que você pensou em fazer, mas não fez. Dos seus tiques, surpresas, calúnias e mentiras. O final da sua piada. O final do seu filme. O refrão da sua canção. Do que você tentou e não conseguiu.
É chato, tedioso e estático, mas é certo. "Não corrói por tempo indeterminado, ou até o nosso próximo lançamento" - garante o fabricante de tubos e conexões - "Ligando a sua vida por um fio até a eternidade".

Seria um inferno viver num mundo de dezesseis milhões de cores, humores esquisitos, cinco milhões de espécies, refletores em comerciais de refrigerantes na avenida, trinta e nove marcas de massa de macarrão na prateleira, oitocentas e noventa e sete profissões. Num mundo contaminado por todo canto, buraco em cima de nossas cabeças, cova embaixo de nossos pés, dinamites explodindo do outro lado do muro enquanto alguém assiste "a vida real dos dublês da comédia mexicana no senado" pela tv. A realidade está na moda. A imaginação perdeu ibope com a jogada de marketing dos criativos. A menina do comercial de sapatos infantis faz escova no cabelo, fala ao celular e se veste como uma prostituta da Unifor e sua filha de seis anos quer o sapato dela, seu cabelo, seu celular e suas roupas. O garoto matou o seu filho de dezesseis anos que fazia artes marciais, porque ele reagiu ao entregar os óculos escuros que o camelô vende a uma quadra adiante por um sexto do preço que você pagou, só que fabricado em Taiwan. Sua mulher se entope de remédios: ao acordar, para viver, de tarde, para ter apetite, de noite para emagrecer e dormir tranqüilamente enqüanto caga 30% da gordura de todos os alimentos que digeriu e não faz sexo com você há quatro anos porque ficou frígida. Sua filha de quinze anos experimentou cocaína aos treze, quando estava de porre de gin, logo depois de dar para um cara de vinte e dois no banheiro de uma boate e puxar a descarga.
Você tem o seu carro, seu salário executivo, sua agenda lotada e está prestes a ter um enfarto aos 42 porque aos 18 bebeu demais, aos 25 fumou demais e aos 30 comeu o que não devia. Às quinze horas, saindo da agência bancária, logo depois de movimentar o dinheiro que você roubou da empresa do seu sogro para uma conta bancária nas Ilhas Malvinas o seu coração vai parar. Talvez você sofra pouco. Talvez o resgate seja chamado só cinco minutos depois, porque ninguém ali perto sabia fazer uma massagem cardíaca no seu coração podre, cinza e entupido. Talvez te dêem choques que quebrem três ou quatro costelas do seu corpo - você não se importaria se sobrevivesse. Talvez você veja toda sua vida em segundos passar diante dos seus olhos. Das coisas que você vai mais sentir saudades: aquela prostituta das Bahamas em que você dispensou cem mil dólares numa semana e teus dez milhões para subornar o diabo no inferno. Talvez seus órgãos cedam, finalmente, os médicos atestem o óbito. 15:23. Sepultado na jazida 534 do São João Batista, junto de nomes como Queiroz, Távora e Jereissati. Um terreno ali vale mais do que três carros populares, só porque é o mais tradicional, perto da Catedral, do Passeio Público, antiga área nobre da cidade. A terra vai cair sobre o teu caixão, mesma terra, marrom e fértil. Junto com você, um terreno de quatro mil dólares que vai ser comido pelos mesmos vermes do cemitério municipal do Mucuripe.

Seria um inferno, se tudo isso acontecesse no mesmo dia e seu humor se apagasse.

Mas o inferno, dizem os sábios, mora onde todos gostam do azul.


Por Rodrigo Fernandes às [13:56]

1 JÁ ME XINGARAM